Introdução #
A floresta amazônica – essencial para a biodiversidade global e para a regulação climática – enfrenta ameaças sem precedentes decorrentes do avanço do desmatamento. Os crimes contra a natureza, definidos como “atividades ilegais que causam danos significativos ao meio ambiente, aos ecossistemas e à biodiversidade”1 , não apenas aceleram essa destruição, como também se alimentam dela. A maior parte do desmatamento na Amazônia é ilegal, ocorrendo em áreas onde a remoção da cobertura florestal é proibida ou exige autorização que não foi concedida ou sequer solicitada. Embora o desmatamento seja criminalizado na maioria dos países da Amazônia, ele frequentemente está associado a outros crimes, como lavagem de dinheiro, tráfico e corrupção.
Este relatório apresenta uma análise abrangente dos fatores que impulsionam o desmatamento nas Unidades de Conservação (UCs) da Amazônia -em níveis nacional, estadual e municipal- e nos Territórios Indígenas (TIs) (definidos aqui como terras indígenas com título formal) em toda a bacia amazônica, com foco especial no ano recorde de 2024, e examina como esses fatores se relacionam com comportamentos ilegais que podem indicar manifestações de Crimes contra a Natureza. O foco nas UCs e nos TIs, onde a remoção em grande escala da cobertura florestal é geralmente proibida, funciona como um indicador robusto da ilegalidade do desmatamento. Com base em dados recentemente disponibilizados sobre os fatores que impulsionam o desmatamento, revelamos como essas áreas desmatadas se relacionam com uma ampla gama de atividades ilegais que vão além da mera remoção de vegetação, permitindo traçar um panorama inicial da extensão e distribuição das diversas manifestações de Crimes contra a Natureza na região.
Somente em 2024, registrou-se uma perda expressiva de floresta primária tanto nas UCs quanto nas ITs, com uma parcela significativa atribuível a atividades ligadas ao crime ambiental. Nossa análise revela que, embora os incêndios florestais — muitas vezes provocados deliberadamente — sejam um dos principais fatores de perda florestal, uma área substancial foi convertida para a agricultura permanente e itinerante, extração de commodities (principalmente mineração de ouro) e desmatamento ilegal. Como essas atividades são frequentemente conduzidas por redes criminosas organizadas, suas implicações ultrapassam os impactos ambientais, afetando também a segurança pública e a governança das jurisdições amazônicas.
Este relatório quantifica a escala dessa destruição, identificando as UCs e TIs mais afetadas por essas atividades ilícitas. Apresentamos uma análise por país, destacando os diversos padrões de desmatamento na Bacia Amazônica. Por exemplo, enquanto os incêndios florestais são o principal fator no Brasil e na Bolívia, o desmatamento relacionado à agricultura é mais prevalente na Colômbia. Além disso, identificamos pontos críticos específicos de desmatamento causado pela mineração de ouro em vários países, fornecendo evidências claras da invasão do crime organizado em áreas protegidas e terras indígenas.
Na Seção 3, aprofundamos a análise no estado estratégico de Mato Grosso, no leste da Amazônia brasileira, examinando em detalhe os eventos de desmatamento legal versus ilegal em diversos setores.
Metodologia #
Esta análise baseia-se nos dados mais recentes da Universidade de Maryland (UMD), que fornecem uma discriminação detalhada da perda de floresta primária entre 2001 e 2024. Nossa metodologia envolveu uma análise aprofundada desses dados em relação aos limites geográficos de mais de 4.200 Unidades de Conservação (UCs) e Territórios Indígenas (TIs) em todo o bioma amazônico. Para garantir a precisão das conclusões, os dados da UMD foram corroborados com imagens de satélite de alta resolução da Planet, permitindo uma avaliação detalhada dos fatores que impulsionam o desmatamento no terreno.
Após uma comparação inicial entre os dois principais conjuntos de dados disponíveis para toda a Amazônia –Universidade de Maryland (via Global Forest Watch) e Mapbiomas –, constatamos que apenas o primeiro estava atualizado até 2024. Dada a importância desse período e o objetivo de fornecer informações oportunas, concentramos a análise nos dados da UMD para apresentar uma estimativa inicial e tempestiva das manifestações de crimes contra a natureza em 2024. Uma comparação mais detalhada entre UMD e o Mapbiomas para 2023 está disponível no Anexo I.
Os dados da UMD distinguem a perda de floresta primária causada por incêndios e por outras formas de remoção da vegetação. Eles abrangem o período de 2001 a 2024 e cobrem todo o bioma e a bacia hidrográfica da Amazônia. Esses dados foram analisados em relação às UCs e aos TIs (fonte: RAISG 2024)2 , resultando em uma grande amostra inicial de mais de 4.200 áreas e territórios no total.
1. Perda florestal em Unidades de Conservação e Territórios Indígenas #
Área total analisada neste relatório abrange:
Área total das UCs = 230,9 milhões de hectares
Área total dos TI = 199,7 milhões de hectares
A distribuição por país revela fortes assimetrias na extensão das áreas protegias e dos territórios indígenas na Bacia Amazônica:
Brasil é o país com a maior área tanto de UCs quanto de Tis, com mais de 128 milhões de ha de UCs e 115 milhões de ha de TIs
Para as Unidades de Conservação, o Brasil é seguido – a grande distância – por: Venezuela (31,1 milhões de ha), Bolívia (23,8 milhões de ha) e Peru (20,9 milhões de ha)
Para os Territórios Indígenas, após o Brasil, destacam-se: Peru (32,2 milhões de ha) e Colômbia (27,9 milhões de ha)
Analisamos a totalidade dessas áreas quanto à perda de floresta primária
Gráfico 1.
Para todo esse conjunto de dados (2001-2024), estimamos 3,9 milhões de hectares de perda de floresta primária por causas não relacionadas a incêndios nas UCs da Amazônia – o equivalente a1,6% de toda a área protegida analisada. Além disso, identificamos 2 milhões de hectares adicionais de perda decorrente de incêndios florestais (ver Tabela 1). É importante destacar que 2024 apresentou, de longe, os maiores totais para ambas as categorias.
Tabela 1
Da mesma forma, estimamos 2,4 milhões de hectares de perda de floresta primária por causas não relacionadas a incêndios nos TIs (1,2% da área total), além de 2,6 milhões de hectares adicionais de perda decorrente de incêndios florestais (ver Gráfico 2). Assim como observado nas UCs, 2024 apresentou, de longe, os maiores totais para ambas as categorias.
Tabela 2
Em seguida, concentramos a análise nos dados recordes de 2024, permitindo uma análise detalhada dos fatores determinantes da perda florestal nessas áreas. Esses dados incluem 685 UCs (nos níveis nacional, estadual e municipal) e 3.605 TIs tituladas.
Para as UCs, estimamos a perda de floresta primária causada por outros fatores (não relacionados a incêndios) em 390.341 hectares, além de um impacto adicional de 783.218 hectares decorrente de incêndios. Para as TIs, estimamos a perda de floresta primária não relacionada a incêndios em 421.811 hectares, além de um impacto adicional de 1.102.518 hectares decorrente de incêndios.
Entre as UCss, a Bolívia registrou a maior perda florestal (175.290 ha), seguida de perto pelo Brasil (172.471 ha).
Da mesma forma, para as TIs, a Bolívia também apresentou a maior perda florestal (229.211 ha), seguida pelo Brasil (105.670 ha) —mais do que o dobro da perda brasileira.
Ao normalizar por área, nas UCs, a Bolívia apresentou, de longe, a maior taxa de desmatamento (0,74%).
Nos TIs, a Bolívia também liderou (1,82%), seguida de perto pela Venezuela (1,68%)
Para direcionar melhor a análise aos casos mais urgentes, aplicamos dois filtros sucessivos: 1) Para as UCs, nos concentramos apenas nos parques nacionais, por serem a categoria mais emblemática e aquela que menos permite usos sustentáveis que poderiam ser confundidos como manifestações de crimes contra a natureza); e 2) tanto para os parques nacionais quanto para as TIs, selecionamos apenas aqueles que registram perda superior a 1.000 hectares de floresta primária em 2024.
A aplicação desses filtros resultou em: 23 parques nacionais (cobrindo 37,9 milhões de hectares) e 86 TIs (cobrindo 94,6 milhões de hectares). Entre os 23 parques nacionais mais impactados, 12 estavam no Brasil, 4 na Bolívia, 3 na Colômbia, 3 na Venezuela e 1 no Peru (ver áreas destacadas em roxo na Figura 1). E, dos 86 TIs mais afetados, 43 estavam no Brasil, 25 na Bolívia, 6 na Guiana, 8 na Venezuela, 3 na Colômbia e 1 no Peru (ver territórios destacados em roxo na Figura 2).
Figura 1. Mapa dos parques nacionais afetados pela perda florestal em 2024
Figura 2. Territórios indígenas afetados pela perda florestal em 2024
2. Análise dos fatores causadores do desmatamento em 2024 #
Na etapa seguinte da análise, examinamos os novos dados sobre os fatores causadores da perda de floresta primária fornecidos pela Universidade de Maryland (UMD). Esse conjunto de dados classifica a perda de floresta primária em sete categorias: agricultura permanente, cultivo itinerante, commodities minerais, exploração madeireira, incêndios florestais, assentamentos e infraestrutura, e outras distúrbios naturais. Para fins de análise, combinamos “Agricultura permanente” e “Cultivo itinerante” em uma categoria geral denominada “Agricultura”, e tratamos “Commodities minerais” como mineração de ouro, por ser o principal vetor dessa classe na Amazônia. Essas categorias, somadas à “Exploração madeireira”, representam os indicadores mais diretos dos crimes contra a natureza. A tabela abaixo detalha como cada classe da UMD se relaciona com possíveis manifestações de crimes contra a natureza.
| Descrição da classe (UMD) | Relação com possíveis crimes contra a natureza |
|---|---|
| Agricultura permanente: perda de cobertura arbórea permanente e de longo prazo para a agricultura de pequena a grande escala. | A agricultura permanente é um dos principais vetores de desmatamento na Amazônia. Quando ocorre em terras sem direitos de uso claros e sem autorização para supressão de vegetação, configura atividade ilegal. Grupos criminosos organizados frequentemente realizam grilagem em larga escala, desmatando áreas protegidas para estabelecer fazendas de gado e plantações, muitas vezes como forma de lavagem de dinheiro proveniente de tráfico de drogas, mineração ilegal e outros crimes. Fontes: The ecosystem of environmental crime in the Amazon; Cattle Supply Chains and Deforestation of the Amazon |
| Commodities minerais (Matérias-primas minerais): perdas associadas à expansão da mineração ou energia. |
A extração de commodities minerais, particularmente a mineração de ouro, é um dos vetores mais críticos de crimes contra a natureza na Amazônia. Embora a área total desmatada por mineração seja menor que a causada pela agricultura ou incêndios, seus impactos ambientais e sociais são profundos. Esse setor é fortemente infiltrado pelo crime organizado, que operam com violência, expulsam comunidades indígenas, exploram trabalhadores e utilizam mercúrio, contaminando rios, solos e cadeias alimentares. O outro extraído ilegalmente é frequentemente lavado em cadeias de abastecimento legais, dificultando o rastreamento de sua origem criminosa. Além disso, a expansão da infraestrutura energética -mesmo quando legal – pode abrir novas frentes de ocupação ilegal, facilitando a entrada de garimpos clandestinos e outras atividades ilícitas em áreas remotas. Fontes: Nature Crime Fuels Deforestation in the Amazon; Inside the fight against illegal mining in the Amazon |
| Cultivo itinerante: desmatamento temporário seguido de regeneração. |
O cultivo itinerante tradicional, praticado por comunidades indígenas, é sustentável e lícito. Porém, em parques nacionais ou quando associados a culturas ilícitas (como coca), pode indicar atividades criminosas. A classe mistura práticas tradicionais com usos ilegais, dificultando a distinção entre ambos. |
| Exploração madeireira: manejo florestal e extração de madeira que ocorrem em florestas manejadas, naturais ou seminaturais e em plantações, frequentemente com evidências de regeneração florestal ou plantio nos anos subsequentes. |
A extração madeireira ilegal é uma das formas mais conhecidas de crime contra a natureza. Organizações criminosas extraem madeira de UCs, TIs e terras públicas, lavando-a com documentos fraudulentos. Estradas ilegais são abertas para acessar áreas remotas, ampliando o desmatamento e facilitando outras atividades ilícitas. Fontes: Stolen Amazon: Environmental Crime in the Tri-Border; Illegal Logging, Wildlife Trafficking, and Enforcement Tech |
| Incêndio florestal: perda de cobertura arbórea causada por fogo, sem conversão agrícola visível. Os incêndios podem ser provocados por causas naturais (por exemplo, raios) ou estar relacionados a atividades humanas (acidentais ou deliberadas). |
Incêndios naturais são raros na Amazônia; a maioria é deliberadamente provocada para desmatar, expandir pastagens, ocultar extração ilegal de madeira ou facilitar grilagem. O fogo é usado como ferramenta criminosa para transformar rapidamente grandes áreas de floresta. Fontes: Nature Crime Fuels Deforestation in the Amazon; Amazon rainforest fires 2022: Facts, causes, and climate impacts |
| Assentamentos e infraestrutura: expansão de estradas, assentamentos, áreas urbanas ou infraestrutura construída (não associada a outras classes). |
Estradas ilegais são um dos principais facilitadores do crime ambiental. Elas permitem acesso a áreas remotas para mineração ilegal, extração de madeira e expansão agrícola criminosa, funcionando como corredores para mercadorias ilícitas. Fonte: How the Amazon crisis is reshaping responses to environmental crime |
| Outros distúrbios naturais: deslizamentos, insetos, erosão fluvial. Se a perda por causas naturais for seguida por extração de resgate ou sanitária, ela é classificada como extração madeireira. | N/A |
Resultados em áreas protegidas #
Nos parques nacionais, a grande maioria (84,4%) da perda florestal detectada foi causada por incêndios de origem humana que se alastraram (classificados pela UMD como incêndios florestais). Outros 2,4% foram atribuídos a fatores naturais (como deslizamentos de terra, tempestades de vento e mudanças no curso dos rios). Com isso, nossa estimativa inicial indica que 13,2% da área perdida nos parques nacionais analisados (aqueles que perderam mais de 1.000 ha em 2024), equivalente a 31.306 hectares, está relacionada a agricultura (permanente e itinerante), mineração de ouro e exploração madeireira – categorias que funcionam como indicadores potenciais de crimes contra a natureza.
Entre os 23 parques nacionais analisados nesta seção, a Venezuela apresentou a maior área total (14,2 milhões de hectares), seguida por Brasil, Colômbia e Bolívia.
A Bolívia registrou a maior perda florestal (125.946 ha), predominantemente causada por incêndios florestais. No Brasil, a maior parte da perda também foi causada por incêndios florestais. Em contraste, na Colômbia, embora a perda total tenha sido menor, a maior parte foi causada pela agricultura permanente.
Houve variações significativas entre os países analisados.
Tanto no Brasil quanto na Bolívia, a maior parte do impacto nos parques nacionais foi causada por incêndios florestais (88% e 96%, respectivamente). O parque mais afetado por incêndios, de longe, foi o Noel Kempff Mercado, na Bolívia (110.000 ha; ver Figura 3). Em seguida, destacam-se os parques Mapinguari e Pacaás Novos, no Brasil, e o Isiboro Securé, na Bolívia (cada um com mais de 10.000 ha).
Figura 3
Outras áreas no Brasil e na Bolívia, no entanto, registraram mais de 1.000 ha de perda florestal causada por agricultura e mineração de ouro, indicando uma relação mais direta com possíveis crimes contra a natureza. Entre os casos mais críticos, Isiboro Securé (Bolívia), Jamanxim (Brasil), que também sofreu incêndios extensos (ver Figura 4) e Mapinguari (Brasil). Cada um desses parques registrou mais de 1.000 ha de perda de floresta primária relacionada à agricultura em 2024.
Figura 4
Na Colômbia, o padrão observado foi substancialmente diferente daquele registrado no Brasil e na Bolívia. Os incêndios florestais representaram apenas 1,8% da perda total de floresta primária nos parques nacionais analisados, enquanto a agricultura respondeu por 87,7% da perda. Três parques nacionais registraram mais de 1.000 ha de perda florestal associada a atividades relacionadas a possíveis crimes contra a Natureza, principalmente agricultura e exploração madeireira: Tinigua (Figura 5), Macarena e Chiribiquete.
Figura 5
No Peru, uma característica importante dos dados foi a exclusão de áreas com alta perda natural (como deslizamentos de terra e tempestades de vento). O parque Manu registrou 1.385 ha de perda de floresta primária em 2024, indicando um problema relevante em um dos parques mais emblemáticos do mundo. Porém, os dados de fatores causais revelaram que essa perda foi, em grande parte, natural (Figura 6).
Figura 6
Resultados em territórios indígenas #
Houve constatações semelhantes para os Territórios Indígenas (TIs) em 2024. A grande maioria da perda (90%) foi causada por incêndios descontrolados, principalmente no Brasil e na Bolívia, e 1% foi atribuída a causas naturais.
Assim, estimamos que quase 9% da área desmatada nos TIs analisados (aqueles com mais de 1.000 há de perda em 2024), equivalente a 119.580 hectares, esteja potencialmente ligada a crimes contra a natureza envolvendo: agricultura permanente (5,3%), cultivo itinerante (0,7%), mineração de ouro (0,6%) e extração madeireira (2%). Ao todo, 19 TIs tiveram mais de 1.000 ha de perda por agricultura e 3 Tis tiveram mais de 1.000 ha de perda para a mineração. Exemplos incluem: TI Sararé (Brasil) -perda extensa por mineração de ouro (Figura 7) e TI Llanos del Yarí Yaguara II (Colômbia) – perda por agricultura (Figura 8).
Entre os 86 TIs analisados nesta seção, o Brasil apresentou a maior área total, seguido por Venezuela e Bolívia. Nos três países, a maior parte da perda foi causada por incêndios florestais, com a pela agricultura permanente aparecendo como segundo fator na Venezuela.
Figura 7
Figura 8
Análise detalhada da perda florestal relacionada à agricultura e à mineração de ouro #
Na etapa final da análise de 2024, focamos na perda florestal causada pela agricultura e pela mineração de ouro em parques nacionais e territórios indígenas. Para isso, aplicamos limites menores: 250 hectares para agricultura e 100 hectares para mineração.
Para cada área acima desses limites, confirmamos a perda florestal e o fator causador com imagens de alta resolução (Planet), o que permitiu identificar diversos falsos positivos, principalmente incêndios classificados como agricultura.
Confirmamos 12 parques nacionais com mais de 250 hectares de desmatamento relacionado à agricultura em 2024 (Figura 9). Os mais afetados foram o Tinigua e o Macarena, na Colômbia (Figura 10 mostra exemplo da confirmação por satélite), com mais de 4.000 ha e 3.000 ha, respectivamente. Outras áreas confirmadas incluem: Jamanxim (Figura 11), Mapinguari, Serra do Pardo, Juruena e Serra do Divisor, no Brasil; Chiribiquete La Paya e Picachos, na Colômbia; e Carrasco, na Bolívia.
Figura 9
Figura 10
Figura 11
Concluímos que a perda florestal em algumas áreas de parques – como no exemplo da Figura 1, mostrando danos por tempestades no Isiboro-Secure, na Bolívia – foi de origem natural e, portanto, provavelmente não está associada a crimes contra a natureza.
Figura 12
Confirmamos 38 TIs com mais de 250 hectares de desmatamento relacionado à agricultura em 2024 (Figura 13). O desmatamento agrícola não é necessariamente ilegal em territórios indígenas, e esses casos exigem análise adicional para distinguir agricultura industrial (provavelmente não autorizada) de agricultura de subsistência, além de identificar possíveis culturas ilícitas, como a coca. Entre os territórios com mais de 1.000 há de perda por agricultura, destacam-se: Ace Catato, Baure, Monte Verde, Takana 1, Takovo Mora e Guarayo, na Bolívia; Cachoeira Seca, no Brasil; e Llanos del Yarí-Yaguara II e Nukak-Maku, na Colômbia. Outros territórios confirmados incluem: Mosetén e Ayopaya, na Bolívia; Tenharim Marmelos, Trincheira/Bacajá, Sepoti, Sete de Setembro e Uru-Eu-Wau-Wau, no Brasil; Selva de Mataven, na Colômbia; Yamanunka, no Equador; e Colpa, Janabeni, Morroyacu e Muruinia, no Peru.
Figura 13
Também confirmamos seis parques nacionais com mais de 100 hectares de desmatamento causado por mineração de ouro em 2024 (Figura 14). Entre eles estão Campos Amazônicos (Figura 15), Jamanxim, Juruena e Rio Novo (Figura 16) no Brasil; e Caura e Canaima na Venezuela.
Figura 14
Figura 15
Figura 16
Confirmamos 15 TIs com mais de 100 hectares de desmatamento causado por mineração de ouro em 2024 (Figura 17). Os mais afetados foram: Kayapó (Figura 18) e Sararé (Figura 19), no Brasil; e Pemon, na Venezuela; cada um deles registrou mais de 1.000 ha de perda. Outras áreas impactadas incluem: San José de Karene (Figura 20), Barranco Chico, Boca Inambari, Kotsima e Tres Islas, no Peru; Yanomami, Aripuanã e Mundurucu, no Brasil; Baramita e Malali, na Guiana; e Akawayo, na Venezuela.
Figura 17
Figura 18
Figura 19
Figura 20
Fator dominante em áreas protegidas e territórios indígenas #
Por fim, apresentamos um mapa do fator dominante de perda florestal para cada parque nacional que ultrapassa os limites definidos (250 hectares para a agricultura e 100 hectares para a mineração de ouro). Esses dados já incorporam as correções feitas a partir imagens de satélite, eliminando falsos positivos presentes nos dados da UMD. O padrão geral mostra que, no Brasil e na Bolívia, a maior parte dos casos está relacionada a incêndios florestais, enquanto na Colômbia o fator dominante é a agricultura (Figura 21).
Figura 21
Dos 78 parques nacionais da Amazônia, os incêndios foram o fator dominante, afetando 26 parques (33%) e cobrindo 202.704 há. Em seguida vieram: causas naturais (20 parques, 26%, cobrindo 7.009 ha), agricultura permanente (17 parques, 22%, cobrindo 23.433 ha), exploração madeireira (9 parques, 12%, cobrindo 6.836 ha), cultivo itinerante (4 parques, 5%, cobrindo 4.335 ha) e a mineração (2 parques, 3%, cobrindo 1.214 ha) (Figura 22).
Figura 22
Dos mais de 3.000 territórios indígenas, o cultivo itinerante foi o fator dominante, afetando 1.243 territórios (41%). Em seguida vieram: agricultura permanente (915 territórios, 30%), causas naturais (334 territórios, 11%), incêndios (270 territórios, 9%), extração madeireira (209 territórios, 7%) e mineração (39 territórios, 1%). Embora o mapa mostra incêndios como mais predominantes, isso ocorre porque afetaram territórios maiores no Brasil e na Bolívia. Já a agricultura aparece mais disseminada, afetando principalmente territórios menores.
3. Estimativa detalhada do desmatamento ilegal no estado de Mato Grosso, Brasil. #
Esta seção se baseia em uma colaboração de quatro anos com o Instituto Centro de Vida (ICV). Nesse período, a Amazon Conservation conduziu o monitoramento mensal dos principais casos de perda florestal detectados pelos alertas do GLAD (Universidade de Maryland). Todos os casos confirmados como desmatamento por imagens de alta resolução (3 metros) foram registrados em uma planilha compartilhada e classificados por fator causador. O ICV então classificou cada caso como legal ou ilegal com base no cadastro fundiário.
Com essa metodologia, estimamos o desmatamento ilegal em todo o e Mato Grosso, incluindo áreas fora de UCs e TIs. A classificação dos fatores evoluiu ao longo dos quatro anos: foco em soja e pecuária em 2022; inclusão de outras culturas em 2023; e incorporação da mineração de ouro em 2024.
Entre 2022-2025, confirmamos 479 casos de desmatamento no estado, dos quais 67% foram ilegais (Figura 23). A área total desses casos é de 131.702 hectares, sendo 61% ilegal e 39% legal – conforme o Código Florestal, proprietários podem desmatar parte de suas terras mediante autorização prévia.
Considerando apenas 2024-2025, período com todas as quatro categorias de fatores, confirmamos 336 casos, dos quais 75% (252) foram ilegais (Tabela 3). A maioria desses casos ilegais (70%) esteve relacionada à mineração de ouro.
A área total desses casos é de 86.615 hectares, sendo 70% ilegal (60.553 hectares; ver Tabela 3). Entre essa área ilegal, quase metade (49%) da área foi destinada à pecuária (29.854 ha), 39% a culturas não relacionadas à soja (23.783 ha), 10% à mineração de ouro (6.053 ha) e 1% à soja (862 ha).
É importante distinguir entre o número de casos e a área afetada. Embora a mineração ilegal de ouro represente a maior parte dos casos de crimes contra a natureza (70%), a área desmatada por essa atividade (10%) é menor do que a área associada aos casos agrícolas (Tabela 3).
Tabela 3
Figura 23
Comparação de dois conjuntos de dados pan-amazônicos: UMD e MapBiomas #
Para esta seção, retornamos a 2023 para comparar dois dos principais conjuntos de dados anuais de perda florestal na Amazônia: Universidade de Maryland (UMD) e Mapbiomas.
Há diferenças importantes entre eles. Primeiro, a UMD divulga os dados anuais mais rapidamente. Em 2025, publicou os dados de 2024 em maio, enquanto o Mapbiomas ainda não havia divulgado os dados de 2024 até outubro de 2025 Segundo, a UMD mede perda de floresta primária, enquanto o Mapbiomas registra qualquer transição no uso da terra.
Em terceiro lugar, os dados anuais da UMD têm 30 metros, mas seus fatores causadores têm resolução de 1.000 metros (1 km). O Mapbiomas mantém 30 metros tanto para perda quanto para fatores causadores.
Em quarto lugar, os dois conjuntos de dados dividem a perda florestal em categorias de fatores causais semelhantes, mas tecnicamente diferentes. A UMD utilizad sete categorias: agricultura permanente, cultivo itinerante, commodities de alto valor, exploração madeireira, incêndios florestais, assentamentos e infraestrutura e outras perturbações naturais. O Mapbiomas também usa sete categorias, mas distintas: pastagem, agricultura, óleo de palma, mosaico de usos, área urbana, mineração e outras áreas sem vegetação.
O Mapbiomas não inclui explicitamente incêndios e extração madeireira, principais formas de degradação florestal, e também não diferencia claramente a perda natural de perda causada pelo homem. Por outro lado, distingue pastagens para gado de outras formas de agricultura.
Para áreas protegidas, a UMD estimou 163.795 hectares de perda de floresta primária por causas não relacionadas a incêndios e mais 177.732 ha por incêndios (341.528 há no total, em 674 UCs). O Mapbiomas estimou 299.837 hectares de transições em 650 UCs. Assim, o Mapbiomas apresenta valores mais altos para desmatamento sem incendios (163.795 ha vs. 299.837 ha), mas mais baixos quando incêndios são incluídos (341.528 ha vs. 299.837 ha).
Para aproximar os dados, filtramos no MapBiomas apenas transições das três categorias florestais principais (Floresta, Formação Florestal, Floresta Inundável). Com isso, a estimativa caiu para 242.982 ha, mais próxima da perda primária não relacionada a incêndios da UMD (163.795 ha).
Nos territórios indígenas, a UMD estimou 178.798 hectares de perda primária por causas não relacionadas a incêndios e 146.088 ha por incêndios (324.887 há no total, em 3.602 territórios). O Mapbiomas estimou 303.832 hectares de transições em 3.496 territórios.
Assim como nas UCs, o Mapbiomas apresenta valores mais altos para desmatamento sem incêndios (178.798 ha vs. 303.832 ha), mas mais baixos quando incêndios são incluídos (324.887 ha vs. 303.832 ha).
Análise 2023, UMD x Mapbiomas #
Na análise de 2023, comparamos os fatores relacionados à agricultura entre UMD e MapBiomas. Para isso, usamos as categorias “Agricultura permanente” e “Cultivo itinerante” da UMD e as categorias “Pastagem”, “Agricultura” e “Óleo de palma” do Mapbiomas. A Figura 24 mostra os resultados. Os dois conjuntos de dados convergem (áreas em vermelho) na maior parte do Brasil e em partes da Bolívia e da Colômbia. No entanto, o Mapbiomas apresenta maior cobertura no leste do Brasil, enquanto a UMD mostra maior cobertura na Amazônia ocidental e nordeste.
Figura 24
Para a mineração, comparamos a categoria “Commodities Minerais” de Maryland com a camada “Mineração” do Mapbiomas (Figura 25).
Figura 25
Em 2023, em todas as áreas protegidas, o Mapbiomas indicou que a maior parte das transições esteve relacionada à agricultura (71%), especialmente pastagens (66%). Em seguida aparecem Mosaico de Usos (45%), Mineração (1%) e Outras Áreas sem Vegetação (1%). Ao aplicar o filtro de floresta primária, a agricultura aumentou para 79%, com destaque para pastagens (73%), enquanto o Mosaico de Usos caiu para 19%. A mineração permaneceu em 1%.
Em 2023, n os territórios indígenas, o Mapbiomas também apontou predominância da agricultura (52%), especialmente pastagens (40%). Depois aparecem Mosaico de Usos (26%), Mineração (1%) e Outras Áreas sem Vegetação (1%).
Restringindo a análise aos parques nacionais com impacto superior a 1.000 ha em 2023, a UMD identificou 8 áreas, enquanto o Mapbiomas identificou 4. Apenas uma área coincidiu entre os dois conjuntos (agricultura em Isiboro Securé). O Mapbiomas não identificou várias áreas com agricultura permanente e perdas por incêndios na Bolívia (Noel Kempff), no Brasil (Juruena e Araguaia) e na Venezuela (Canaima e Caura). Por outro lado, a UMD não identificou três áreas com transições para agricultura e mosaico de usos na Bolívia (Carrasco) e no Equador (Cayambe Coca e Sangay).
Da mesma forma, restringimos a análise aos territórios indígenas com impacto superior a 1.000 ha em 2023. A UMD identificou 50 territórios, enquanto o MapBiomas identificou 52. Dezoito se sobrepuseram (Bolívia, Brasil e Colômbia). Focando nos fatores específicos associados a crimes contra a natureza, no caso da agricultura, identificamos 30 territórios com impacto superior a 250 hectares na UMD, contra 40 no Mapbiomas. No caso da mineração, curiosamente, identificamos 5 territórios com impacto superior a 100 hectares na UMD, contra zero no Mapbiomas, o que levanta dúvidas sobre a precisão da camada de mineração do Mapbiomas. Entre esses territórios estão Kayapó, Mundurucu, Sararé e Yanomami.
Conclusão #
A análise deste relatório estabelece uma relação quantificável entre o desmatamento em Unidades de Conservação (UCs) e nas Terras Indígenas (TIs) da Amazônia e possíveis crimes contra a natureza, que geralmente fazem parte de padrões organizados de mudança no uso da terra.
Os resultados destacam a necessidade de um monitoramento contínuo dos fatores que impulsionam o desmatamento e sua correlação com diversas formas de crimes contra a natureza. À medida que métodos ilícitos evoluem, as abordagens analíticas utilizadas também precisam avançar. O monitoramento contínuo fornece às agências de fiscalização e ambientais dados para identificar tendências, prever áreas de risco e apoiar intervenções direcionadas.
A sociedade civil, ao atuar além das fronteiras nacionais e manter continuidade institucional, pode garantir esse monitoramento de longo prazo, além de fortalecer a transparência e a prestação de contas, assegurando que os resultados orientem decisões políticas e de fiscalização.
No futuro, séries temporais consistentes sobre fatores causadores do desmatamento e sua relação com crimes contra a natureza em toda a Amazônia poderão oferecer insights úteis sobre a eficácia das medidas de fiscalização adotadas para combatê-lo.
Notas #
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WRI, 2025, People, Planet, Justice: Understanding and Countering Nature Crime. Disponível em: https://www.wri.org/research/people-planet-justice-understanding-and-countering-nature-crime
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A Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas é um consórcio de organizações da sociedade civil dos países amazônicos, apoiado por parceiros internacionais, preocupado com a sustentabilidade socioambiental da Amazônia. https://www.raisg.org/
